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Texto da exposição por Marta Mestre

UM “OBRONI” NO GANA -da boca para o pensamento

Marta Mestre

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Em raros filmes dos anos 50 e 60 do séc. XX sobre as culturas africanas apercebemo-nos de um posicionamento distante face aos objectos filmados, um quase pudor em exercer discurso sobre estas realidades. Les Statues meurent aussi [1] (1953), filme de Chris Marker e Alain Resnais, é um destes exemplos.

Num período em que “conhecer” significou “dominar”, este filme vem dizer-nos: “Nous ne savons rien (Não sabemos nada)”.

Desde essa época até aos nossos dias muita coisa mudou. No plano das relações entre os artistas existe, desde há muito tempo, a vontade de trabalhar em conjunto para conhecer e, nesse sentido, promovem-se iniciativas culturais que suscitam o encontro. Se é verdade que a arte africana acontece, na sua grande maioria, no hemisfério Norte, e as suas maiores conquistas (políticas, financeiras, filosóficas, estéticas, etc.) aqui tiveram lugar, é certo que o continente africano se afirma cada vez mais como espaço relacional privilegiado para os agentes culturais.

Ainda recentes na prática artística de Jorge Rocha, a realização de experiências com base nos alimentos já foram apresentadas no Brasil, em Portugal… e no Gana, em África. Foi aqui que realizou, em 2009, o workshop “Sansa International Artist’s”, no âmbito da rede “Triangle Arts Trust”. A iniciativa decorreu em Kumasi, na região de Ashanti, e reuniu vinte artistas (dez artistas ganeses e dez artistas internacionais) em torno das potencialidades locais. Como escreve Atta Kwami, o coordenador do workshop: “Kumasi serve de modelo útil para a compreensão das interacções complexas da prática visual contemporânea (artistas que trabalham com colagem, fotógrafos, produtores de têxtil, metalúrgicos, gravadores, entre outros)”[2].

Oriundos de países tão diferentes como a China, o Irão, ou Portugal, os artistas deste workshoprealizaram projectos cujos resultados traduzem esse encontro com África, mas também com a vulnerabilidade cultural do mundo pós-colonial (politizado, transfigurado, codificado, recusado, agenciado, “samplado”, etc.).

Jorge Rocha trabalhou sobre as relações sociais que se estabelecem em torno da comida. Digamos que entrou pela boca de cada um dos participantes, que o mesmo é dizer, pelos seus desejos, necessidades, ou primitivismos. Entrou pela boca, no centro de África. Pelos seus paladares, cheiros, cores, e sabores.

Aquilo a que podemos ter acesso em Lagos é uma exposição, o resultado do grande festim, ou da festa de babette [3] que decorreu no Gana, mas sobre a qual “não sabemos nada”. “OBRONI – Cozinhando no Gana: colaboração, comunidade e acção performativa” apresenta-se assim como um “documento” que regista a experiência vivida e as relações artísticas e afectivas que se estabeleceram durante a experiência. Se, por um lado, a exposição nos informa sobre aspectos da vivência do workshop, por outro, apresenta-se sob a forma de instalação, integrando simultaneamente vários elementos (vídeo, som, alimentos, instrumentos utilizados, etc.). “OBRONI…” remete-nos para o tempo da experiência e da criação de Jorge Rocha, ou seja, para uma geografia particular e um clima propício à viagem, que nos chega em diferido, mas em plena sinestesia.

A exposição segmenta as diferentes etapas associadas ao projecto de culinária: um particular interesse pelos sujeitos – “Francisca” -, pelos momentos de refeição partilhados – “Table II” – e, evidentemente, pelas receitas “Kelewele”, “In collaboration: Pouding Fufu” ou “In the table: Migas d’Alho”.

Um dos elementos que se destaca do conjunto da exposição é a “mesa” onde os artistas-comensais partilharam as refeições e as experiências de vida. Trata-se de um quadrado branco disposto no chão, e cujas características gráficas lembram signos de sinalização. Lembra também um pátio, ou um claustro ao qual a ideia de Éden não andará muito longe. Para J. Rocha esta “mesa” branca relacionar-se-á igualmente com o título deste projecto – “obroni” –, palavra que é usada pelos ganeses para identificar os brancos. “Obroni! Obroni!”, ter-lhe-ão chamado, muitas vezes, durante as suas deambulações pelos mercados de Kumasi… Costuma ser assim nos mercados de alguns países de África.

Segundo Jorge Rocha, o termo “culinária expansiva” refere-se a projectos que valorizam a “(…) acção concreta de cozinhar, a gestualidade de quem cozinha e o acto social da refeição”.

Estrategicamente, o uso da palavra “expansiva” neste contexto remete para os anos 60 do século passado, em que ocorre a alteração radical nas gramáticas e procedimentos vigentes. No caso particular deste projecto, trata-se de ajustar uma “arte milenar” ao novo vocabulário do mundo contemporâneo, nomeadamente à participação activa do espectador e à alteração do significado do universo culturalmente familiar da cozinha. Jorge Rocha refere-se a este espaço de experimentação como um “território laboratorial” onde se encontra “uma natureza pictórica e performativa”, subvertendo assim os papéis culturais associados ao universo da cozinha. Aquilo que se pressupõe é um reajuste dos modos de ver e fazer habituais. Da boca para o pensamento

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[1] Marker/Resnais (1953): Les Statues meurent aussi, documentário.
[2] “Kumasi provides a useful model for understanding the complex interrelationship of contemporary visual pratice (collage based artists, sign painters, photographers, textile makers, metal workers, carvers, and so forth)” in “Hands on Art”, Sansa III, 9-16 June 2009, Kumasi, Ghana.
[3] AXEL, Gabriel (1987): Babettes Gaestebud, filme. Tradução para português “Festa de Babette”, baseado no romance de Karen Blixen. Conta a história de Babette, cozinheira famosa de Paris que se exila na Dinamarca durante a Comuna de Paris. A sorte de um bilhete de lotaria leva-a a preparar o mais faustoso dos festins gastronómicos da cozinha francesa.

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